CRÔNICA DE NATAL
Daniela Theodoro
Era ainda bem cedo. As ruas seguiam o movimento do vai e vem de pessoas e coisas e carros sem intermitências. O barulho do trânsito se confundia com o barulho de sacolas e embrulhos. O céu deveria estar claro, mas estava fechado de um cinza acastanhado. Este ano observei algo ainda diferente: as ruas com pouco brilho, menos luz. Reparou? Brinquei de contar enfeites de natal durante meu percurso. Contei apenas quatro. Prova de que as pessoas estão se desvinculando da alegria do Natal. Todos intoxicados pelos excessos a que se impuseram, pela pressa, pela falta de tempo. Consomem e são consumidos cada vez mais pelos donos temporais que devassam nosso claro estoque de manhãs e de luas e de poesias que trazemos no sangue e no vento e na alma.
Avistei no meio da multidão alguém com vestimentas singulares. Era um homem com chapéu. Vestia um paletó escuro e usava no peito uma placa com alguns escritos. Da distância que estava não dava para ler. Detive-me a observá-lo por um instante. Aproximei-me. Seus olhos eram grandes e brilhantes. Li a placa: Vendem-se sonhos. Não acreditei. Uma suntuosa curiosidade me dominou. Quase imaginei aquele doce com açúcar polvilhado. Mas não vi nada. Não trazia nada. Incrédula, perguntei:
-Você vende o quê??
-Sonhos, respondeu-me.
-Mas sonhos de quê? Com um sorriso espantado.
-Sonhos! Você não tem sonhos?
-Claro! Mas como vender o invendável? Esforcei-me para entender.
-De quantos precisa? Tenho de todos os tipos e tamanhos.
Por um momento fiquei a pensar e me lembrei da lâmpada mágica de Aladim e o gênio dizendo “seu desejo é uma ordem...” os três desejos. Que brincadeira gostosa. O gênio da lâmpada solicitando os meus desejos... No mínimo me veio, claro, a megassena acumulada da virada de ano...
Voltei para a realidade.
– De quantos precisa? Falou-me com ternura.
Meu Deus! O mundo caindo sobre nossas cabeças e este homem na rua vendendo sonhos...
Resolvi entrar na brincadeira, pois era Natal e essa data é sempre envolvente. Não é todo dia que encontro alguém vendendo sonhos por aí. Resolvi aproveitar.
-Quanto custa cada sonho?
-Vendo-os pelo preço da sua credibilidade. Basta pedir, acreditar e comprar.
Vou me esbaldar, pensei. E logo comecei a brincar de fábrica de sonhos.
Antes que pudesse continuar, estendeu-me as mãos e disse:
-Diga-me, de quantos sonhos precisa?
-Não sei! Tenho certeza de que a minha lista está aqui em algum lugar. Mas sinto-os embaraçados. Alguns interrompidos; outros até esquecidos.
-Deixe que eles floresçam naturalmente. Permita-se alimentá-los. Espere até que eles se enraízem. Quer ajuda? Pense no Natal..., que é sobretudo nascimento e renascimento. Natal é sonho de gente que se encanta, que se alegra, que se conhece, que se estima. Natal é voltar à infância, sonho de criança, dormir ansioso para receber os presentes no dia seguinte. São brilhos de felicidade simples. Cheiro de comidas, convivência. Natal é a anunciação de uma nova era para os “homens de boa vontade”. O Natal nos oferece o sonho, a oportunidade de refletirmos sobre o que fomos, quem somos, o que queremos, aonde chegar, com quem chegar. É o momento de fazer o balanço, de renovarmos as metas, de nos propormos mudanças, já que a vida nos requer a experiência da finitude. É hora de recusar que a convivência e as emoções fiquem paradas no tempo. É se permitir a aproximação, a desventura contínua. É se permitir pensar sem se programar como um robô, sem alma, sem sonhos. É dizer não para a ditadura racionalista que não compreende o espaço do intervir, do ser-a-vir, do vir-a-ser, da necessária autonomia de sonhar. Enquanto pensa e organiza seus sonhos, deixo-lhe uma amostra. E me entregou um saquinho de pano.
Mesmo embriagada pelas palavras do homem, quis abri-lo imediatamente.
–Não o abra agora.
Fiquei parada olhando o embrulho e até me esqueci de que estava no meio da rua. Uma buzina de ônibus me fez despertar. Olhei de um lado a outro. Ele já não estava mais lá.
Abri rapidamente a sacola e encontrei um papel com o desenho de uma vírgula.
Num primeiro momento não entendi nada. Lembrei-me de Clarice que abre e fecha livros com uma vírgula. E logo compreendi. Ele tinha razão. Era preciso sempre continuar, seguir em frente. Sem ponto final.
Organizei meus sonhos por alguns minutos e saíram naturalmente: saúde (para o corpo), paz (para a alma) e respeito cuidadoso (para mim e para meu semelhante).
...E a megassena acumulada? Devem estar me perguntando.
Ela é consequência dessas conquistas, porque Natal é todo dia. É fraternidade. É se colocar no lugar do outro. É diálogo. É perdão. É paciência e tolerância. Enfim, é aprendizagem envolvente.
Boas-vindas
Seja bem-vindo a este espaço de interlocução, em que o pensar habita o momento.
Aqui o diálogo e a reflexão sobre linguagens e comportamentos humanos contemporâneos se constituem e se configuram num tecer contínuo e múltiplo de fios e teias e redes.
São as palavras que dão som de ditos, saber e sabor de confabulações. Ora diálogo ora sussurro ora conversas. Vozes desassossegadas.
Meu convite ...
Cafezinho Mineiro
sentar-se na cozinha ao pé do fogão à lenha, cafezinho com pão de queijo, broa de fubá e boa prosa, divagações...
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