A melhor sensação do mundo
Daniela Theodoro
Uma vez, em reunião com amigos, daquelas de jogar conversa fora (ou dentro- dependendo da perspectiva), chegamos a um impasse: ir para casa ou continuar a falar bobagens. Escolhemos, claro, a segunda. Afinal, existe algo melhor do que ficar falando abobrinhas a noite toda? (tenho certeza que existe, mas agora não me vem nada melhor à cabeça). Então, já quase bêbados, propomo-nos a alguns desafios: escolher a personalidade de que gostaríamos de passar a noite (ou o dia, ou os dois). As respostas variavam muito ao gosto do freguês: desde Murilo Rosa (!!!) até Kate Middleton- que está na última moda. Até que chegamos a questões mais filosóficas e menos animalescas. A pergunta era: “qual a melhor sensação do mundo?”. “Banho quente” – um respondeu; “feriado”- outro; “beijar na boca”; e outras menos publicáveis... Até que um amigo disse fechando a discussão: “material escolar novo”. Caderno em branco para encapar e colocar etiquetas, lápis para apontar, apontador, borracha colorida, canetinhas...
Não houve quem discordasse.
Após um minuto de silêncio, todos concordavam que nada se igualava àquela sensação: quando, no início do ano, chegavam os materiais novos, aquele cheiro, aquela textura...que felicidade clandestina!! Fazíamos juramento secreto e silencioso de que aquele ano seria diferente. Seríamos mais caprichosos e cuidadosos com eles, pelo menos nas duas primeiras semanas, e depois... voltávamos a ser os mesmos de antes, sonhando com o ano seguinte e com a sensação de que também seríamos novos novamente para começar tudo de novo.
Boas-vindas
Seja bem-vindo a este espaço de interlocução, em que o pensar habita o momento.
Aqui o diálogo e a reflexão sobre linguagens e comportamentos humanos contemporâneos se constituem e se configuram num tecer contínuo e múltiplo de fios e teias e redes.
São as palavras que dão som de ditos, saber e sabor de confabulações. Ora diálogo ora sussurro ora conversas. Vozes desassossegadas.
Meu convite ...
Cafezinho Mineiro
sentar-se na cozinha ao pé do fogão à lenha, cafezinho com pão de queijo, broa de fubá e boa prosa, divagações...
ACESSE O SITE PARA CONHECER AS OPÇÕES DE CURSOS E PALESTRAS: www.cursosdanielatheodoro.com
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
O que as pessoas precisam resgatar?
Daniela Theodoro
Um tema muito discutido hoje não só nas relações profissionais mas também nas relações interpessoais é certamente a convivência respeitosa, humana e ética. E se existe uma palavra que resume essa atitude é a palavra Gentileza.
A palavra Gentileza deriva da raiz latina "gens" (genoma, genético).
Em Roma, "gens" significava o clã, o mesmo grupo familiar de convivência.
Veja que interessante! A nossa essência genética é dotada de gentileza.
Então, por que para muitas pessoas essa atitude é tão desconhecida?
O relacionamento externo reflete o relacionamento interno, ou seja, como o indivíduo se constrói primeiro dentro de si. Portanto, entende-se que ser gentil com o outro é ser gentil consigo mesmo.
A resposta à pergunta acima se relaciona com a autoimagem que cada sujeito elabora para si e percebe sobre si.
Se queremos mais gentilezas no mundo, devemos resgatar nesse sujeito o amor próprio e o cuidado consigo mesmo para que, depois, ele possa ver o outro com respeito, com valor e com ética.
Daniela Theodoro
Um tema muito discutido hoje não só nas relações profissionais mas também nas relações interpessoais é certamente a convivência respeitosa, humana e ética. E se existe uma palavra que resume essa atitude é a palavra Gentileza.
A palavra Gentileza deriva da raiz latina "gens" (genoma, genético).
Em Roma, "gens" significava o clã, o mesmo grupo familiar de convivência.
Veja que interessante! A nossa essência genética é dotada de gentileza.
Então, por que para muitas pessoas essa atitude é tão desconhecida?
O relacionamento externo reflete o relacionamento interno, ou seja, como o indivíduo se constrói primeiro dentro de si. Portanto, entende-se que ser gentil com o outro é ser gentil consigo mesmo.
A resposta à pergunta acima se relaciona com a autoimagem que cada sujeito elabora para si e percebe sobre si.
Se queremos mais gentilezas no mundo, devemos resgatar nesse sujeito o amor próprio e o cuidado consigo mesmo para que, depois, ele possa ver o outro com respeito, com valor e com ética.
CRÔNICA SOBRE O ENCONTRO
Daniela Theodoro
Escrever é mais ou menos assim: tudo vira matéria-prima...
...e nos descaminhos do silêncio, entrei na boleia do caminhão e segui por uma estrada de terra. A poeira me impregnava até as retinas. Fechei os olhos...
Quando ele chegou estava lendo Veríssimo...
Era uma crônica sobre os caminhos que percorremos, as escolhas que fazemos. Vivemos cercados pelas nossas alternativas, pelo que podíamos ter sido:
Ah, se apenas tivesse acertado aquele número na mega sena acumulada, topado aquele emprego, completado aquele curso, chegado antes, depois, dito sim, não, ido para Assis, me tornado monge?…
E se tivesse feito odontologia, ou parado o curso e seguido meu sonho? E se não tivesse dado aquele conselho ao filho daquela mulher? E se tivesse me dedicado mais ao trabalho, feito mais horas extras, percebido e sentido mais as pessoas? E se tivesse ligado nos aniversários dos meus amigos? E se o outro não fosse apenas o outro?...
E se...? E se...?
Fez-me lembrar do trecho de uma carta no filme “Cartas para Julieta”:
"E" e "Se" são duas palavras tão inofensivas quanto qualquer palavra, mas coloque-as juntas lado a lado, e elas têm o poder de assombrá-la pelo resto da sua vida. "E se".. E se? E se?
Essa pergunta nos assombra todos os dias.
A personagem de Veríssimo, depois de alguns copos, para ficar livre da assombração, evoca todas as versões de si mesmo em suas várias possibilidades. Ao final, ao conhecê-los melhor, chega à conclusão de que os seus eus estavam ali naquele bar querendo ter escolhido uma outra vida, um outro caminho, porque sentiam que tudo poderia ser diferente e melhor. E esse sentimento os fazia desejar uma vida outrem, sem se considerar merecedor do que havia se tornado...
Ao final do encontro, com as poeiras da vida impregnadas (até as retinas), percebemos que a vida não é feita das decisões que não tomamos, ou das atitudes que não tivemos, e sim, daquilo que verdadeiramente foi feito.
Segundo Veríssimo: se bom ou não, penso: é melhor viver do futuro que do passado!
Daniela Theodoro
Escrever é mais ou menos assim: tudo vira matéria-prima...
...e nos descaminhos do silêncio, entrei na boleia do caminhão e segui por uma estrada de terra. A poeira me impregnava até as retinas. Fechei os olhos...
Quando ele chegou estava lendo Veríssimo...
Era uma crônica sobre os caminhos que percorremos, as escolhas que fazemos. Vivemos cercados pelas nossas alternativas, pelo que podíamos ter sido:
Ah, se apenas tivesse acertado aquele número na mega sena acumulada, topado aquele emprego, completado aquele curso, chegado antes, depois, dito sim, não, ido para Assis, me tornado monge?…
E se tivesse feito odontologia, ou parado o curso e seguido meu sonho? E se não tivesse dado aquele conselho ao filho daquela mulher? E se tivesse me dedicado mais ao trabalho, feito mais horas extras, percebido e sentido mais as pessoas? E se tivesse ligado nos aniversários dos meus amigos? E se o outro não fosse apenas o outro?...
E se...? E se...?
Fez-me lembrar do trecho de uma carta no filme “Cartas para Julieta”:
"E" e "Se" são duas palavras tão inofensivas quanto qualquer palavra, mas coloque-as juntas lado a lado, e elas têm o poder de assombrá-la pelo resto da sua vida. "E se".. E se? E se?
Essa pergunta nos assombra todos os dias.
A personagem de Veríssimo, depois de alguns copos, para ficar livre da assombração, evoca todas as versões de si mesmo em suas várias possibilidades. Ao final, ao conhecê-los melhor, chega à conclusão de que os seus eus estavam ali naquele bar querendo ter escolhido uma outra vida, um outro caminho, porque sentiam que tudo poderia ser diferente e melhor. E esse sentimento os fazia desejar uma vida outrem, sem se considerar merecedor do que havia se tornado...
Ao final do encontro, com as poeiras da vida impregnadas (até as retinas), percebemos que a vida não é feita das decisões que não tomamos, ou das atitudes que não tivemos, e sim, daquilo que verdadeiramente foi feito.
Segundo Veríssimo: se bom ou não, penso: é melhor viver do futuro que do passado!
NATAL E ANO NOVO
Daniela Theodoro
Natal e Ano novo é o bocado mais delicioso que temos
Todos murmuram e não há quem deixa de ser murmurado:
O velho se lembra dos velhos tempos
O moço goza todos os regalos
As moças, estrelas azuis, com decotes e curtos
Alguns cantam; outros desafinam
Ou conversam sobre objetos inocentes que movem olhaduras e risadinhas apreciáveis e oblíquas
Uns matam lábios os beijos em segredos
No mesmo tempo e no mesmo todo
Entre-teceres
Vê-se à mesa abundância
Famintos e Insanos
Recomeçando
Sempre
Daniela Theodoro
Natal e Ano novo é o bocado mais delicioso que temos
Todos murmuram e não há quem deixa de ser murmurado:
O velho se lembra dos velhos tempos
O moço goza todos os regalos
As moças, estrelas azuis, com decotes e curtos
Alguns cantam; outros desafinam
Ou conversam sobre objetos inocentes que movem olhaduras e risadinhas apreciáveis e oblíquas
Uns matam lábios os beijos em segredos
No mesmo tempo e no mesmo todo
Entre-teceres
Vê-se à mesa abundância
Famintos e Insanos
Recomeçando
Sempre
domingo, 8 de maio de 2011
PARA AS MÃES
Músicas, árvores e agricultores
Daniela Theodoro
Já algum tempo, um pequeno grupo de amigos se reúne para ler poesia e ficar mais bonito por dentro, porque é isto que a poesia faz com sua presença: torna-nos espectadores do espetáculo da vida. E, intensos, com olhos cheios, no estado mais puro de beleza, caminhamos na nossa própria verdade, transformando-nos em essência.
Pois aconteceu um dia. Pediram-me que escrevesse um texto sobre as mães. Esse tema nos provoca imediatamente um silêncio absurdo, que logo virou lugar de passagem. E nesse silêncio, que nasce o ouvir, veio a música.
Gosto de pensar que as mães são músicas intensas. Nunca num estilo só. Às vezes calma, erudita, às vezes doce, frenética, caipira, samba-canção, alegre. Mães são pássaros em voo, como a música. São naturais, são objetos sonoros, um ruiruidar de presenças, de ditos, de aconselhamentos, até de gritaria. E do seu grito nasce o sopro inquieto de não compreender que letra, que nota é essa? Que missão se deve cumprir até o final do concerto?
Mas gosto de pensar também que as mães são árvores. Às vezes laranjeiras. Sempre querendo que seus filhos sejam pêssegos, coitados! O desejo de que eles sejam melhores, diferentes, perfeitos. Mas eles são laranjeiras... e nunca darão pêssegos.
Ou, então, penso que as mães são pequenas agricultoras. Preparar a terra, adubar, molhar, aquecer e esperar crescer. Pode ser que o plantio gere colheita, frutos, ou não. Podem-se colher laranjas, pêssegos, maçãs, bananas, o que for que tiver de ser.
Mas as mães, se forem boas músicas, boas árvores e boas agricultoras, deixam-nos o principal: a inspiração, o tom, a melodia, a aprendizagem das pequenas coisas, de fazer escolhas, de errar, de pedir perdão, de fazer silêncio, rezar, cantar, plantar e colher.
As mães nos ensinam a sermos mães e pais aflitos, com medo de errar, mas alegres por tentarmos... incansadamente.
Daniela Theodoro
Já algum tempo, um pequeno grupo de amigos se reúne para ler poesia e ficar mais bonito por dentro, porque é isto que a poesia faz com sua presença: torna-nos espectadores do espetáculo da vida. E, intensos, com olhos cheios, no estado mais puro de beleza, caminhamos na nossa própria verdade, transformando-nos em essência.
Pois aconteceu um dia. Pediram-me que escrevesse um texto sobre as mães. Esse tema nos provoca imediatamente um silêncio absurdo, que logo virou lugar de passagem. E nesse silêncio, que nasce o ouvir, veio a música.
Gosto de pensar que as mães são músicas intensas. Nunca num estilo só. Às vezes calma, erudita, às vezes doce, frenética, caipira, samba-canção, alegre. Mães são pássaros em voo, como a música. São naturais, são objetos sonoros, um ruiruidar de presenças, de ditos, de aconselhamentos, até de gritaria. E do seu grito nasce o sopro inquieto de não compreender que letra, que nota é essa? Que missão se deve cumprir até o final do concerto?
Mas gosto de pensar também que as mães são árvores. Às vezes laranjeiras. Sempre querendo que seus filhos sejam pêssegos, coitados! O desejo de que eles sejam melhores, diferentes, perfeitos. Mas eles são laranjeiras... e nunca darão pêssegos.
Ou, então, penso que as mães são pequenas agricultoras. Preparar a terra, adubar, molhar, aquecer e esperar crescer. Pode ser que o plantio gere colheita, frutos, ou não. Podem-se colher laranjas, pêssegos, maçãs, bananas, o que for que tiver de ser.
Mas as mães, se forem boas músicas, boas árvores e boas agricultoras, deixam-nos o principal: a inspiração, o tom, a melodia, a aprendizagem das pequenas coisas, de fazer escolhas, de errar, de pedir perdão, de fazer silêncio, rezar, cantar, plantar e colher.
As mães nos ensinam a sermos mães e pais aflitos, com medo de errar, mas alegres por tentarmos... incansadamente.
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
ANTES QUE ELES CRESÇAM
Antes que elas cresçam
Affonso Romano de Sant'Anna
Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.
É que as crianças crescem. Independentes de nós, como árvores, tagarelas e pássaros estabanados, elas crescem sem pedir licença. Crescem como a inflação, independente do governo e da vontade popular. Entre os estupros dos preços, os disparos dos discursos e o assalto das estações, elas crescem com uma estridência alegre e, às vezes, com alardeada arrogância.
Mas não crescem todos os dias, de igual maneira; crescem, de repente.
Um dia se assentam perto de você no terraço e dizem uma frase de tal maturidade que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura.
Onde e como andou crescendo aquela danadinha que você não percebeu? Cadê aquele cheirinho de leite sobre a pele? Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário com palhaços, amiguinhos e o primeiro uniforme do maternal?
Ela está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil. E você está agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela não apenas cresça, mas apareça. Ali estão muitos pais, ao volante, esperando que saiam esfuziantes sobre patins, cabelos soltos sobre as ancas. Essas são as nossas filhas, em pleno cio, lindas potrancas.
Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão elas, com o uniforme de sua geração: incômodas mochilas da moda nos ombros ou, então com a suéter amarrada na cintura. Está quente, a gente diz que vão estragar a suéter, mas não tem jeito, é o emblema da geração.
Pois ali estamos, depois do primeiro e do segundo casamento, com essa barba de jovem executivo ou intelectual em ascensão, as mães, às vezes, já com a primeira plástica e o casamento recomposto. Essas são as filhas que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das notícias e da ditadura das horas. E elas crescem meio amestradas, vendo como redigimos nossas teses e nos doutoramos nos nossos erros.
Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.
Longe já vai o momento em que o primeiro mênstruo foi recebido como um impacto de rosas vermelhas. Não mais as colheremos nas portas das discotecas e festas, quando surgiam entre gírias e canções. Passou o tempo do balé, da cultura francesa e inglesa. Saíram do banco de trás e passaram para o volante de suas próprias vidas. Só nos resta dizer “bonne route, bonne route”, como naquela canção francesa narrando a emoção do pai quando a filha oferece o primeiro jantar no apartamento dela.
Deveríamos ter ido mais vezes à cama delas ao anoitecer para ouvir sua alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de colagens, posteres e agendas coloridas de pilô. Não, não as levamos suficientemente ao maldito “drive-in”, ao Tablado para ver “Pluft”, não lhes demos suficientes hambúrgueres e cocas, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas merecidas.
Elas cresceram sem que esgotássemos nelas todo o nosso afeto.
No princípio subiam a serra ou iam à casa de praia entre embrulhos, comidas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscinas e amiguinhas. Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de sorvetes e sanduíches infantis. Depois chegou a idade em que subir para a casa de campo com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar a turma aqui na praia e os primeiros namorados. Esse exílio dos pais, esse divórcio dos filhos, vai durar sete anos bíblicos. Agora é hora de os pais na montanha terem a solidão que queriam, mas, de repente, exalarem contagiosa saudade daquelas pestes.
O jeito é esperar. Qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer conosco. Por isso, os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável afeição. Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto.
Por isso, é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que elas cresçam.
Affonso Romano de Sant'Anna
Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.
É que as crianças crescem. Independentes de nós, como árvores, tagarelas e pássaros estabanados, elas crescem sem pedir licença. Crescem como a inflação, independente do governo e da vontade popular. Entre os estupros dos preços, os disparos dos discursos e o assalto das estações, elas crescem com uma estridência alegre e, às vezes, com alardeada arrogância.
Mas não crescem todos os dias, de igual maneira; crescem, de repente.
Um dia se assentam perto de você no terraço e dizem uma frase de tal maturidade que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura.
Onde e como andou crescendo aquela danadinha que você não percebeu? Cadê aquele cheirinho de leite sobre a pele? Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário com palhaços, amiguinhos e o primeiro uniforme do maternal?
Ela está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil. E você está agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela não apenas cresça, mas apareça. Ali estão muitos pais, ao volante, esperando que saiam esfuziantes sobre patins, cabelos soltos sobre as ancas. Essas são as nossas filhas, em pleno cio, lindas potrancas.
Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão elas, com o uniforme de sua geração: incômodas mochilas da moda nos ombros ou, então com a suéter amarrada na cintura. Está quente, a gente diz que vão estragar a suéter, mas não tem jeito, é o emblema da geração.
Pois ali estamos, depois do primeiro e do segundo casamento, com essa barba de jovem executivo ou intelectual em ascensão, as mães, às vezes, já com a primeira plástica e o casamento recomposto. Essas são as filhas que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das notícias e da ditadura das horas. E elas crescem meio amestradas, vendo como redigimos nossas teses e nos doutoramos nos nossos erros.
Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.
Longe já vai o momento em que o primeiro mênstruo foi recebido como um impacto de rosas vermelhas. Não mais as colheremos nas portas das discotecas e festas, quando surgiam entre gírias e canções. Passou o tempo do balé, da cultura francesa e inglesa. Saíram do banco de trás e passaram para o volante de suas próprias vidas. Só nos resta dizer “bonne route, bonne route”, como naquela canção francesa narrando a emoção do pai quando a filha oferece o primeiro jantar no apartamento dela.
Deveríamos ter ido mais vezes à cama delas ao anoitecer para ouvir sua alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de colagens, posteres e agendas coloridas de pilô. Não, não as levamos suficientemente ao maldito “drive-in”, ao Tablado para ver “Pluft”, não lhes demos suficientes hambúrgueres e cocas, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas merecidas.
Elas cresceram sem que esgotássemos nelas todo o nosso afeto.
No princípio subiam a serra ou iam à casa de praia entre embrulhos, comidas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscinas e amiguinhas. Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de sorvetes e sanduíches infantis. Depois chegou a idade em que subir para a casa de campo com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar a turma aqui na praia e os primeiros namorados. Esse exílio dos pais, esse divórcio dos filhos, vai durar sete anos bíblicos. Agora é hora de os pais na montanha terem a solidão que queriam, mas, de repente, exalarem contagiosa saudade daquelas pestes.
O jeito é esperar. Qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer conosco. Por isso, os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável afeição. Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto.
Por isso, é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que elas cresçam.
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