Boas-vindas




Seja bem-vindo a este espaço de interlocução, em que o pensar habita o momento.

Aqui o diálogo e a reflexão sobre linguagens e comportamentos humanos contemporâneos se constituem e se configuram num tecer contínuo e múltiplo de fios e teias e redes.

São as palavras que dão som de ditos, saber e sabor de confabulações. Ora diálogo ora sussurro ora conversas. Vozes desassossegadas.

Meu convite ...


Cafezinho Mineiro
sentar-se na cozinha ao pé do fogão à lenha, cafezinho com pão de queijo, broa de fubá e boa prosa, divagações...

ACESSE O SITE PARA CONHECER AS OPÇÕES DE CURSOS E PALESTRAS: www.cursosdanielatheodoro.com






sexta-feira, 23 de março de 2012

AS LETRAS

AS LETRAS
As letras podem ser únicas
DNA
As letras podem ser sóbrias
AA
As letras podem ter conteúdo
ETC
As letras podem dar prazer
G
As letras podem ser um parâmetro
QI
As letras podem ter peso
KG
As letras podem ser alucinantes
LSD
As letras podem ser profundas
OMM...
As letras sempre têm algo a mais a dizer
PS
As letras podem ser masculinas
XY
ou femininas
XX
As letras podem ser de grande ajuda
SOS
As letras podem ser explosivas
TNT
As letras podem marcá-lo por toda vida
HIV
As letras podem ser um alívio
WC
As letras podem significar infinitas coisas
N
As letras podem causar delírios de grandeza
XL
As letras podem ser um bom final
Z
Junte as letras!
Ler é comunicar-se,
aprender,
conhecer...
Desenvolve o vocabulário, a compreensão e o pensamento crítico.
Leia mais e melhor.

A leitura torna o homem completo.

segunda-feira, 19 de março de 2012

O QUE NÃO PARECE VIVO... ADUBA

Aprendi com as primaveras a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira...

(Cecília Meireles)

LEITURA

Adélia Prado
Era um quintal ensombrado, murado alto de pedras.
As macieiras tinham maçãs temporãs, a casca vermelha
de escuríssimo vinho, o gosto caprichado das coisas
fora do seu tempo desejadas.
Ao longo do muro eram talhas de barro.
Eu comia maçãs, bebia a melhor água, sabendo
que lá fora o mundo havia parado de calor.
Depois encontrei meu pai, que me fez festa
e não estava doente e nem tinha morrido, por isso ria,
os lábios de novo e a cara circulados de sangue,
caçava o que fazer pra gastar sua alegria:
onde está meu formão, minha vara de pescar,
cadê minha binga, meu vidro de café?
Eu sempre sonho que uma coisa gera,
nunca nada está morto.
O que não parece vivo, aduba.
O que parece estático, espera.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

A melhor sensação do mundo
Daniela Theodoro

Uma vez, em reunião com amigos, daquelas de jogar conversa fora (ou dentro- dependendo da perspectiva), chegamos a um impasse: ir para casa ou continuar a falar bobagens. Escolhemos, claro, a segunda. Afinal, existe algo melhor do que ficar falando abobrinhas a noite toda? (tenho certeza que existe, mas agora não me vem nada melhor à cabeça). Então, já quase bêbados, propomo-nos a alguns desafios: escolher a personalidade de que gostaríamos de passar a noite (ou o dia, ou os dois). As respostas variavam muito ao gosto do freguês: desde Murilo Rosa (!!!) até Kate Middleton- que está na última moda. Até que chegamos a questões mais filosóficas e menos animalescas. A pergunta era: “qual a melhor sensação do mundo?”. “Banho quente” – um respondeu; “feriado”- outro; “beijar na boca”; e outras menos publicáveis... Até que um amigo disse fechando a discussão: “material escolar novo”. Caderno em branco para encapar e colocar etiquetas, lápis para apontar, apontador, borracha colorida, canetinhas...
Não houve quem discordasse.
Após um minuto de silêncio, todos concordavam que nada se igualava àquela sensação: quando, no início do ano, chegavam os materiais novos, aquele cheiro, aquela textura...que felicidade clandestina!! Fazíamos juramento secreto e silencioso de que aquele ano seria diferente. Seríamos mais caprichosos e cuidadosos com eles, pelo menos nas duas primeiras semanas, e depois... voltávamos a ser os mesmos de antes, sonhando com o ano seguinte e com a sensação de que também seríamos novos novamente para começar tudo de novo.
O que as pessoas precisam resgatar?
Daniela Theodoro

Um tema muito discutido hoje não só nas relações profissionais mas também nas relações interpessoais é certamente a convivência respeitosa, humana e ética. E se existe uma palavra que resume essa atitude é a palavra Gentileza.
A palavra Gentileza deriva da raiz latina "gens" (genoma, genético).
Em Roma, "gens" significava o clã, o mesmo grupo familiar de convivência.
Veja que interessante! A nossa essência genética é dotada de gentileza.
Então, por que para muitas pessoas essa atitude é tão desconhecida?
O relacionamento externo reflete o relacionamento interno, ou seja, como o indivíduo se constrói primeiro dentro de si. Portanto, entende-se que ser gentil com o outro é ser gentil consigo mesmo.
A resposta à pergunta acima se relaciona com a autoimagem que cada sujeito elabora para si e percebe sobre si.
Se queremos mais gentilezas no mundo, devemos resgatar nesse sujeito o amor próprio e o cuidado consigo mesmo para que, depois, ele possa ver o outro com respeito, com valor e com ética.
CRÔNICA SOBRE O ENCONTRO
Daniela Theodoro

Escrever é mais ou menos assim: tudo vira matéria-prima...

...e nos descaminhos do silêncio, entrei na boleia do caminhão e segui por uma estrada de terra. A poeira me impregnava até as retinas. Fechei os olhos...
Quando ele chegou estava lendo Veríssimo...
Era uma crônica sobre os caminhos que percorremos, as escolhas que fazemos. Vivemos cercados pelas nossas alternativas, pelo que podíamos ter sido:
Ah, se apenas tivesse acertado aquele número na mega sena acumulada, topado aquele emprego, completado aquele curso, chegado antes, depois, dito sim, não, ido para Assis, me tornado monge?…
E se tivesse feito odontologia, ou parado o curso e seguido meu sonho? E se não tivesse dado aquele conselho ao filho daquela mulher? E se tivesse me dedicado mais ao trabalho, feito mais horas extras, percebido e sentido mais as pessoas? E se tivesse ligado nos aniversários dos meus amigos? E se o outro não fosse apenas o outro?...
E se...? E se...?
Fez-me lembrar do trecho de uma carta no filme “Cartas para Julieta”:
"E" e "Se" são duas palavras tão inofensivas quanto qualquer palavra, mas coloque-as juntas lado a lado, e elas têm o poder de assombrá-la pelo resto da sua vida. "E se".. E se? E se?
Essa pergunta nos assombra todos os dias.
A personagem de Veríssimo, depois de alguns copos, para ficar livre da assombração, evoca todas as versões de si mesmo em suas várias possibilidades. Ao final, ao conhecê-los melhor, chega à conclusão de que os seus eus estavam ali naquele bar querendo ter escolhido uma outra vida, um outro caminho, porque sentiam que tudo poderia ser diferente e melhor. E esse sentimento os fazia desejar uma vida outrem, sem se considerar merecedor do que havia se tornado...
Ao final do encontro, com as poeiras da vida impregnadas (até as retinas), percebemos que a vida não é feita das decisões que não tomamos, ou das atitudes que não tivemos, e sim, daquilo que verdadeiramente foi feito.

Segundo Veríssimo: se bom ou não, penso: é melhor viver do futuro que do passado!
NATAL E ANO NOVO
Daniela Theodoro

Natal e Ano novo é o bocado mais delicioso que temos
Todos murmuram e não há quem deixa de ser murmurado:
O velho se lembra dos velhos tempos
O moço goza todos os regalos
As moças, estrelas azuis, com decotes e curtos
Alguns cantam; outros desafinam
Ou conversam sobre objetos inocentes que movem olhaduras e risadinhas apreciáveis e oblíquas
Uns matam lábios os beijos em segredos
No mesmo tempo e no mesmo todo
Entre-teceres
Vê-se à mesa abundância
Famintos e Insanos
Recomeçando
Sempre

domingo, 8 de maio de 2011

PARA AS MÃES

Músicas, árvores e agricultores
Daniela Theodoro

Já algum tempo, um pequeno grupo de amigos se reúne para ler poesia e ficar mais bonito por dentro, porque é isto que a poesia faz com sua presença: torna-nos espectadores do espetáculo da vida. E, intensos, com olhos cheios, no estado mais puro de beleza, caminhamos na nossa própria verdade, transformando-nos em essência.
Pois aconteceu um dia. Pediram-me que escrevesse um texto sobre as mães. Esse tema nos provoca imediatamente um silêncio absurdo, que logo virou lugar de passagem. E nesse silêncio, que nasce o ouvir, veio a música.
Gosto de pensar que as mães são músicas intensas. Nunca num estilo só. Às vezes calma, erudita, às vezes doce, frenética, caipira, samba-canção, alegre. Mães são pássaros em voo, como a música. São naturais, são objetos sonoros, um ruiruidar de presenças, de ditos, de aconselhamentos, até de gritaria. E do seu grito nasce o sopro inquieto de não compreender que letra, que nota é essa? Que missão se deve cumprir até o final do concerto?
Mas gosto de pensar também que as mães são árvores. Às vezes laranjeiras. Sempre querendo que seus filhos sejam pêssegos, coitados! O desejo de que eles sejam melhores, diferentes, perfeitos. Mas eles são laranjeiras... e nunca darão pêssegos.
Ou, então, penso que as mães são pequenas agricultoras. Preparar a terra, adubar, molhar, aquecer e esperar crescer. Pode ser que o plantio gere colheita, frutos, ou não. Podem-se colher laranjas, pêssegos, maçãs, bananas, o que for que tiver de ser.
Mas as mães, se forem boas músicas, boas árvores e boas agricultoras, deixam-nos o principal: a inspiração, o tom, a melodia, a aprendizagem das pequenas coisas, de fazer escolhas, de errar, de pedir perdão, de fazer silêncio, rezar, cantar, plantar e colher.
As mães nos ensinam a sermos mães e pais aflitos, com medo de errar, mas alegres por tentarmos... incansadamente.