Boas-vindas




Seja bem-vindo a este espaço de interlocução, em que o pensar habita o momento.

Aqui o diálogo e a reflexão sobre linguagens e comportamentos humanos contemporâneos se constituem e se configuram num tecer contínuo e múltiplo de fios e teias e redes.

São as palavras que dão som de ditos, saber e sabor de confabulações. Ora diálogo ora sussurro ora conversas. Vozes desassossegadas.

Meu convite ...


Cafezinho Mineiro
sentar-se na cozinha ao pé do fogão à lenha, cafezinho com pão de queijo, broa de fubá e boa prosa, divagações...

ACESSE O SITE PARA CONHECER AS OPÇÕES DE CURSOS E PALESTRAS: www.cursosdanielatheodoro.com






quinta-feira, 29 de julho de 2010

AMAR DE FLORBELA ESPANCA

Amar

Florbela Espanca


Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

sexta-feira, 23 de julho de 2010

O QUE É LER?

"Ler o Mundo" de Afonso Romano de Sant'Anna


Tudo é leitura. Tudo é decifração. Ou não.
Ou não, porque nem sempre deciframos os sinais à nossa frente. Ainda agora os jornais estão repetindo, a propósito das recentes eleições, “que é preciso entender o recado das urnas”. Ou seja: as urnas falam, emitem mensagens. Cartola - o sambista- dizia “as rosas não falam, as rosas apenas exalam o perfume que roubam de ti”. Perfumes falam. E as urnas exalaram um cheiro estranho. O presidente diz que seu partido precisa tomar banho de “cheiro de povo”. E enquanto repousava nesses feriados e tomava banho em nossas águas, ele tirou várias fotos com cheiro de povo.

Paixão de ler. Ler a paixão.
Como ler a paixão se a paixão é quem nos lê? Sim, a paixão é quando nossos inconscientes pergaminhos sofrem um desletrado terremoto. Na paixão somos lidos à nossa revelia .
O corpo é um texto. Há que saber interpretá-lo. Alguns corpos, no entanto, vêm em forma de hieroglifo, dificílimos. Ou, a incompetência é nossa, iletrados diante deles?

Quantas são as letras do alfabeto do corpo amado? Como soletrá-lo? Como sabê-lo na ponta da língua? Tem 24 letras? Quantas letras estranhas, estrangeiras nesse corpo? Como achar o ponto G na cartilha de um corpo? Quantas novas letras podem ser incorporadas nesta interminável e amorosa alfabetização? Movido pelo amor, pela paixão pode o corpo falar idiomas que antes desconhecia.

O médico até que se parece com o amante. Ele também lê o corpo. Vem daí a semiologia. Ciência da leitura dos sinais. Dos sintomas. Daí partiu Freud, para ler o interior, o invisível texto estampado no inconsciente. Então, os lacanianos todos se deliciaram jogando com as letras - a letra do corpo, o corpo da letra.

Diz-se que Marx pretendeu ler o inconsciente da história e descobrir os mecanismos que nela estavam escritos/inscritos. Portanto, um economista também lê a sociedade. Os empresários e executivos, por sua vez, se acostumaram a falar de "qualidade total". Mas seria mais apropriado falar de "leitura total". Só uma leitura não parcial, não esquizofrênica do real pode nos ajudar na produtividade dos significados. Por isto, é legítimo e instigante falar não apenas de uma "leitura da economia", mas de algo novo e provocador: a "economia da leitura".

Não é só quem lê um livro, que lê.
Um paisagista lê a vida de maneira florida e sombreada. Fazer um jardim é reler o mundo, reordenar o texto natural. A paisagem, digamos, pode ter "sotaque", assim como tem sabor e cheiro. Por isto se fala de um jardim italiano, de um jardim francês, de um jardim inglês. E quando os jardineiros barrocos instalavam assombrosas grutas e jorros d’água entre seus canteiros estavam saudando as elipses do mistério nos extremos que são a pedra e a água, o movimento e a eternidade.

O urbanista e o arquiteto igualmente escrevem, melhor dito, inscrevem, um texto na prancheta da realidade. Traçados de avenidas podem ser absolutistas, militaristas, e o risco das ruas pode ser democrático dando expressividade às comunidades.
Tudo é texto. Tudo é narração.

O astrônomo lê o céu, lê a epopeia das estrelas. Ora, direis, ouvir & ler estrelas. Que estórias sublimes, suculentas, na Via Láctea. O físico lê o caos. Que epopéias o geógrafo lê nas camadas acumuladas num simples terreno. Um desfile de carnaval, por exemplo, é um texto. Por isto se fala de “samba enredo”. Enredo além da história pátria referida. A disposição das alas, as fantasias, a bateria, a comissão de frente são formas narrativas.

Uma partida de futebol é uma forma narrativa. Saber ler uma partida - este o mérito do locutor esportivo, na verdade, um leitor esportivo. Ele, como o técnico, vê coisas no texto em jogo, que só depois de lidas por ele, por nós são percebidas. Ler, então, é um jogo. Uma disputa, uma conquista de significados entre o texto e o leitor.

Paulinho da Viola dizia: "As coisas estão no mundo eu é que preciso aprender”. Um arqueólogo lê nas ruínas a história antiga.
Não é só Scheherazade que conta estórias. Um espetáculo de dança é narração. Uma exposição de artes plásticas é narração. Tudo é narração. Até o quadro “Branco sobre o branco” de Malevich conta uma estória.

Aparentemente ler jornal é coisa simples. Não é. A forma como o jornal é feita, a diagramação, a escolha dos títulos, das fotos e ilustrações são já um discurso. E sobre isto se poderia aplicar o que Umberto Eco disse sobre o “Finnegans Wake” de James Joyce: “o primeiro discurso que uma obra faz o faz através da forma como é feita”.

Estamos com vários problemas de leitura hoje. Construimos sofisticadíssimos aparelhos que sabem ler. Eles nos lêem. Nos lêem, às vezes, melhor que nós mesmos. E mais: nós é que não os sabemos ler. Isto se dá não apenas com os objetos eletrônicos em casa ou com os aparelhos capazes de dizer há quantos milhões de anos viveu certa bactéria. Situação paradoxal: não sabemos ler os aparelhos que nos lêem. Analfabetismo tecnológico.

A gente vive falando mal do analfabeto. Mas o analfabeto também lê o mundo. Às vezes, sabiamente. Em nossa arrogância o desclassificamos . Mas Levi-Strauss ousou dizer que algumas sociedades iletradas eram ética e esteticamente muito sofisticadas. E penso que analfabeto é também aquele que a sociedade letrada refugou. De resto, hoje na sociedade eletrônica, quem não é de algum modo analfabeto?

Vi na fazenda de um amigo aparelhos eletrônicos, que ao tirarem leite da vaca, são capazes de ler tudo sobre a qualidade do leite, da vaca , e até (imagino) lerem o pensamento de quem está assistindo à cena. Aparelhos sofisticadíssimos lêem o mundo e nos dão recados. A camada de ozônio está berrando um S.O.S., mas os chefes de governo, acovardados, tapam (economicamente) o ouvido. A natureza está dizendo que a água, além de infecta, está acabando. Lemos a notícia e postergamos a tragédia para nossos netos.

É preciso ler, interpretar e fazer alguma coisa com a interpretação. Feiticeiros e profetas liam mensagens nas vísceras dos animais sacrificados e paredes dos palácios. Cartomantes lêem no baralho, copo d’água, búzios.Tudo é leitura. Tudo é decifração.
Ler é uma forma de escrever com mão alheia.

Minha vida daria um romance? Daria, se bem contado. Bem escrevê-lo são artes da narração. Mas só escreve bem, quem ao escrever sobre si mesmo, lê o mundo também.

QUE LINDEZA MAIS LINDA

AMIGO MEU, J. Guimarães Rosa, mano-velho, muito saudar!
Me desculpe, mas só agora pude campear tempo para ler o romance de Riobaldo. Como que pudesse antes? Compromisso daqui, obrigação dacolá... Você sabe: a vida é um Itamarati viver é muito dificultoso.

Ao despois de depois, andaram dizendo que você tinha inventado uma língua nova e eu não gosto de língua inventada. Sempre arreneguei de esperantos e volapuques. Vai-se ver, não é língua nova nenhuma a do Riobaldo. Difícil é, às vezes. Quanta palavra do sertão! A princípio, muito aplicadamente, ia procurar a significação no dicionário. Não encontrava. Pena o título: Grande Sertão: Veredas. Nenhum dicionário dá a palavra "vereda" com o significado que você mesmo define à página 74: "Rio é só o São Francisco, o Rio do Chico. O resto pequeno é vereda." Tinha vezes que pelo contexto eu inteligia: "ciriri dos grilos", "gugo da juriti" etc. Mas até agora não sei, me ensine, o que é "arga", "suscenso", "lugugem" e um desadôro de outras vozes dos
gerais. Tinha vezes que eu nem podia atinar se a palavra era nome de bicho vivente, plantinha ou coisa sem corpo nem côr nem coragem, abstrato que se diz, não é? Ou é? Ou será?

Ainda por cima disso, você fez Riobaldo poeta, como Shakespeare fez Macbeth poeta. Natural: por que um jagunço dos gerais demais do Urucuia não poderá ser poeta? Pode sim. Riobaldo é você se você fosse jagunço. A sua invenção é essa: pôr o jagunço poeta inventando dentro da linguagem habitual dele. O vocabulário dele já é riquíssimo, dá a impressão que não ficou de fora nenhuma dicção de seus pagos e arredores; aumentado com os neologismos, sempre de boa formação lingüística, ficou um potosi, nossa! A gente acaba tendo que entregar os pontos, nem que seja um Gilberto Amado. O diabo é que depois de ler você a gente começa a se sentir e cantar eu sou pobre, pobre, pobre, rema, rema, rema, ré.

Só que acho que não precisava contar de um rojão só, como o Joyce do último capítulo de Ulysses, as 594 páginas da história de Riobaldo.
Quantas horas levaria? Eu levei dias para ler. Ainda bem que você virgulou tudo, minudente. E o caso de Diadorim, seria mesmo possível? Você é dos gerais, você é que sabe.

Amigo meu J. Guimarães Rosa, mano-velho, o menino Guirigó e o cego Borromeu são duas criações geniais. Aliás todo esse mundo de gente vive com uma intensidade assombrosa. E o sertão? O sertão é uma espera enorme.

E o silêncio? O vento é verde. Aí, no intervalo, o senhor pega o silêncio, põe no colo.

Tão deleitável tudo, nem que estar nos braços da linda moça Rosa'uarda, ou de Nhorinhá, de Ana Dazuza filha, ou daquela prostitutriz que proseava gentil sobre as sérias imoralidades.

Ah Rosa, mano-velho, invejo é o que você sabe: O diabo não há! Existe é o homem humano.

Soscrevo.
13/03/1957
>
> BANDEIRA, M. "Grande sertão: veredas". In: Poesia completa e prosa. 2

CONTOS MINEIROS

MEMÓRIAS JUNINAS
Sebastião Aimone Braga

O tempo passou muito rápido em volta do meu viver. Fui muito feliz no meu destino: casei, tive filhos bons e amorosos, uma mulher dedicada e hoje, quando posso, brinco com meus netos. Mas a memória me tange pra longe, para os tempos idos, pra lembranças que sempre voltam. Mais ainda quando o corpo cansado pede repouso, silêncio e aí minha imaginação viaja a deus dará.

Um olhar de curiosidade emerge, saindo de trás de uma fogueira e o calor da imagem feminina desenha-se numa noite fria de junho, no reino da minha infância. De madrugada, nas baixadas e na beira do córrego, camada fininha de geada cobrira os pastos, as plantações. Acabara o tempo das chuvas, começava a estiagem, os pastos secavam. As andorinhas e outros pássaros partiam já pra terras mais quentes. Havia a colheita do milho, as festas, os carreiros besuntavam o eixo dos carros de boi com azeite de mamona pro carro cantar mais e afinado. Era época de fazer rapaduras, que às vezes eram desmanchadas no tacho; pingando água, davam o ponto. Viravam melado, comido depois com angu, queijo ralado ou com farinha torrada do munho. Época de o calcanhar rachar e doer, de tanto frio e poeira.

No finzinho daquela tarde de junho, todos reunidos em volta da bacia de brasa na cozinha, “causos” com ouvintes atentos e participantes, caras assustadas das crianças. Alguns se arriscavam a ir lá fora, no friozinho que fazia sair vapor na fala, depois de uma pinguinha das boas, sorvida aos goles. No centro do terreiro, uma fogueira grande com muita lenha, bambu verde pra dar tiros, gravetos. Levavam pra assar nas brasas batata doce, milho verde e pinhão. Outros preferiam os caldos gordos de feijão, de mandioca, canjiquinha com costelinha de porco, nacos de linguiça tirada dos varais enfumaçados sobre os fogões antigos. O quentão recendendo gengibre, canela, cravo, cachaça e calda de açúcar. Pra adoçar a boca, canjica e pé de moleque nos pratos esmaltados e descascados.

Em volta do terreiro e circundando a fogueira, enfeites de bandeirinhas, mastros de homenagem aos santos, bananeiras, cercas de bambu e taquara. Os homens, corajosos sedutores ou confiando na fé e na tradição, caminhavam céleres sobre as brasas. Barulho de bombinhas estourando, assustando crianças e cachorros curiosos. Foguetes subiam ao céu em meio aos gritos e vivas, cada vez mais embalados pelas bebidas quentes. A sanfona já se fazia ouvir, ritmada, iniciando arrasta-pé com os primeiros casais levantando poeira no chão batido. Tudo isso me vem à lembrança num véu de nostalgia. Sugestão dos cabelos morenos a se movimentarem na friagem da noite, do outro lado da fogueira, fora do alcance das minhas mãos e das minhas saudades.

Quieto e sonhador, vislumbrei flor natural nos cabelos soltos e cheios, jeito moleque de menina. Imagens fragmentadas de vestido colorido a rodopiar em folguedos alegres, como em câmera lenta. Mosaico de cores em intervalos do negro da noite, vermelho das chamas, amarelo da claridade da fogueira. Às vezes, a cena se congelava, talvez minha memória, e a ilusão de leve mirada. Os primeiros arroubos de moçoilo encantado, hoje saudoso de um beijo que não chegou a acontecer naquela noite. Aconteceria?

A cena reconstrói-se em palavras. Os cheiros e sabores, na fumaça da memória: imagem paralisada de uma noite junina na minha infância. Foram-se todos. Ficou a cinza da saudade daqueles tempos, no fogo da vida que se esvai, na memória de tanta estrada percorrida. Chega o ocaso avermelhado do meu inverno, após tantas geadas e tanto frio. Quando meu voo partir para outras terras, quiçá menos frias, eu seguirei o sol com a imagem do meu primeiro sonho masculino, nessa distante noite, que, acredito, me acompanhará encantada até minha estiagem.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

A GRANDE TRANSFORMAÇÃO

MILHO DE PIPOCA
Rubem Alves

A transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação por que devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser. O milho de pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho de pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer. Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo. Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre. Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quandopassamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e uma dureza assombrosas. Só elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser. Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Pode ser o fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder o emprego, ficar pobre, não estar bem colocado no mercado de trabalho. Pode ser o fogo de dentro: pânico, medo, ansiedade, depressão,sofrimentos cujas causas ignoramos. Há sempre o recurso do remédio rápido: Apagar o fogo. Sem fogo, o Sofrimento diminui. Mas com isso, também desaparece a possibilidade de grande transformação. Mas é no fogo que as mudanças ocorrem. Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pensa que a sua hora chegou: vai morrer. Dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo a grande transformação acontece: BUM! E ela aparece como uma outra coisa completamente diferente que ela mesma nunca havia sonhado. Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar. São aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem. A sua presunção e o medo são a dura casca que não estoura. O destino delas é triste. Ficarão duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca e macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre de pipoca, no fundo da panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo. E você, o que é? Uma pipoca estourada ou um piruá?

A ATUAÇÃO DO PSICOPEDAGOGO EM PROJETOS EMPREENDEDORES

OLHARES EM MULTIPLICIDADES

Daniela Theodoro
a educação precisa ao mesmo tempo trabalhar a unidade da espécie humana de forma integrada com a idéia de diversidade. O princípio da unidade/diversidade deve estar presente em todas as esferas. Para tanto, torna-se necessário educar para os obstáculos à compreensão humana, combatendo o egocentrismo, o etnocentrismo e o sociocentrismo, que procuram colocar em posição secundária aspectos importantes para a vida das pessoas e das sociedades (MORIN, 2000, p.25).
Resumo: Este artigo pretende discutir a atuação do psicopedagogo na contemporaneidade, salientando aspectos importantes de seu trabalho para a multiplicidade e diversidade, propondo-lhe o desafio de historicizar-se: pensar a sua história como aprendente, no passado e no presente, em um processo interativo em que entram em jogo a iniciativa, a ação e reação, a pergunta e a dúvida, a busca de entendimento. Para isso, é descrito o Projeto Colcha de Retalhos, tecendo histórias. O objetivo é possibilitar ao profissional psicopedagogo uma reflexão acerca de seus principais objetos de estudo: a aprendizagem por meio do brincar e do construir e os sujeitos aprendentes.
Palavras-chave: Atuação do psicopedagogo; aprendizagem para a diversidade; sujeito aprendente.
Introdução
Este artigo se inicia abordando a importância de se falar do reconhecimento, da aceitação e do olhar para a multiplicidade. Não é possível falar sobre o trabalho do psicopedagogo, principalmente em ações empreendedoras, sem antes entender o conceito da subjetividade e da diversidade. Edgar Morin (2000), em seu livro Os sete saberes necessários à educação do futuro, nos apresenta um dos pressupostos básicos para a educação: o princípio da unidade/diversidade em que se insere o olhar dos educadores para a multiplicidade.
O exercício desse olhar (diferenciado, múltiplo) se configura como imprescindível para estabelecer instâncias libertadoras, construtivas e reconstrutivas do sujeito aprendente, fugindo de arquétipos sociais e estereótipos alienantes, que marginalizam aqueles que agem ou estão diferente da norma e dos valores vigentes (PAIN, 1992).
A partir dessa perspectiva, entende-se que o maior desafio do psicopedagogo em sua atuação é pensar constantemente a sua prática e ser competente o bastante para possibilitar ao aprendiz pensar na e para a multiplicidade, diversidade. Ser competente o bastante subentende-se aqui que esse profissional busque conhecimentos intelectuais (leituras e vivências interdisciplinares) suficientes para cumprir a sua missão de fazer-se pensar. E pensar implica necessariamente autonomia, escolhas e autoria de sua própria história, pois “aprender supõe um sujeito que se historia. Historicizar-se é quase sinônimo de aprender” (FERNANDEZ, 2001, p.68).
Essa proposta de Alicia Fernandez nos aponta para algo precípuo: como despertar o aprendente para o pensamento, a autonomia e para a autoria sem antes o psicopedagogo ter sido despertado, seduzido? É possível um profissional que lida com aprendizagem ser capaz de atuar com eficiência sem ter-se historiciado, sem ter aprendido para a multiplicidade? “Aprender supõe um reconhecimento da passagem do tempo, do processo construtivo, o qual remete, necessariamente, à autoria.”(FERNANDEZ, 2001, p.68).
Com esses questionamentos, convido você, psicopedagogo ou futuro psicopedagogo, a historicizar-se, num olhar invertido, não só como profissional mas como aprendente: narrar a si mesmo. Narrar sua história de aprendizagem. Construir ou reconstruir seu passado e reconhecer-se dentro dele para significar o mundo, e principalmente a si próprio.
Nesse processo, desperta-se para a responsabilidade do que é lidar com a aprendizagem do outro, convocando-se para a responsabilidade de lidar com a própria aprendizagem, revivendo sua história e percebendo lacunas a serem preenchidas. Essa autocrítica se faz necessária para desvelar que lhes faltam preparação e entendimento de que existe um caminho longo a ser percorrido, pois não se está pronto para começar sem que se tenha consciência da busca incessante por informação, conhecimento e aprendizagem por meio de um trabalho ético e voltado para valores sociais e múltiplos.

1 Projeto Empreendedor

1.1 Colchas de retalhos: Tecendo histórias

O Projeto Colchas de Retalhos: tecendo histórias é um projeto desenvolvido pela autora com o objetivo de inserir o idoso, contador de histórias, no universo da criança e do adulto, por meio do jogo, do brincar e da contação de histórias, que são desenhadas e bordadas pelos participantes, que constroem juntos uma colcha de retalhos. Este Projeto tem sido desenvolvido em algumas escolas e instituições educacionais por meio de contratação autônoma. Ao se definir o projeto, todas as fases foram identificadas e avaliadas, considerando os três pilares principais: A iniciativa empreendedora (Comportamento Empreendedor); O planejamento e desenvolvimento do projeto (Fundamentos da Administração); e o foco centrado nos processos de aprendizagem, inserção e valorização da memória e da subjetividade dos sujeitos envolvidos (Psicopedagogia).

1.2 A Iniciativa Empreendedora

O projeto teve como ponto de partida o olhar para a diversidade, multiplicidades. O tema, ainda com ações insipientes, se mostra inovador e intelegível para lidar com problemas contemporâneos, como o diálogo difícil entre as gerações. A princípio, buscou-se por meio de pesquisas informais em escolas e em algumas comunidades se havia demanda e oportunidades para a inserção deste trabalho. Os resultados foram positivos e os desafios (prazerosos) começaram a ser estabelecidos e superados.

1.3 O Planejamento do Projeto

A segunda fase foi iniciada: desenhou-se o projeto e as estratégias que seriam empregadas não só para a realização dele como também para a divulgação e marketing. Quem contrata o projeto é a Instituição Escolar cujo público alvo envolve a família, o alunado, os professores e a comunidade local. O foco do projeto é a inserção do idoso no grupo, que medeia as narrativas contadas por várias gerações, destacando a importância da memória nas relações sociais. A duração do projeto é definida pela contratante a partir dos objetivos traçados. Ou seja, existem formulações e adaptações do projeto para atender às necessidades de cada grupo.

1.4 A Atuação do Psicopedagogo

O psicopedagogo, como mediador do projeto, tem por responsabilidade trabalhar os processos de aprendizagem, por meio do brincar e da memória, utilizando as diversas histórias e características de narradores (subjetividades). Ao mesmo tempo em que se trabalha a aprendizagem do idoso, as outras gerações também se voltam para a valorização, inserção e aceitação dessa fase do processo de amadurecimento do ser humano, com respeito e admiração.

Considerações Finais

A Atuação do psicopedagogo deve ser uma prática social ética que busca realizar nos sujeitos humanos as características de humanização plena. Ela está ligada a processos de comunicação e interação pelos quais os grupos de pertencimento de uma sociedade (aprendente, psicopedagogo, família e escola) assimilam saberes, habilidades, técnicas, atitudes, valores existentes no meio culturalmente organizado, ganhando conhecimento necessário para produzir novos saberes, técnicas e valores (PAIN, 2002). Portanto, o objetivo maior dos psicopedagogos é contribuir para a construção permanente da cidadania e da individualidade dos sujeitos. E somente por meio da educação é possível se pensar em uma intervenção revolucionária no mundo, como nos diz Freire (1997). Tonucci (2006, p.69) nos aponta que “o homem, como sujeito que aprende, é constituído pelo que aprende, e não pode desvincular o que faz no mundo daquilo que faz de si mesmo, por sua capacidade de reflexão.” A capacidade de entendimento e reflexão sobre os desafios deve impulsionar o psicopedagogo a criar novas formas de ação, desenvolvendo empreendimentos capazes de superar obstáculos e contribuir para a educação, impulsionando projetos educacionais inovadores.

Referências
FERNANDEZ, Alicia. Os idiomas do aprendente: análise de modalidades ensinantes com famílias, escolas e meios de comunicação. Porto Alegre: Artmed, 2001.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia - Saberes necessários `a prática educativa. São Paulo: Paz e Terra (Colecção Leitura), 1997.
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez, 2000.
PAIN, Sara. Diagnóstico e tratamento dos problemas de aprendizagem. Porto Alegre: Artes Médicas, 2002.
TONUCCI, Francesco. Com Olhos de Criança. Porto Alegre: Artmed, 2006.

terça-feira, 20 de julho de 2010

HOMENAGEM AOS LEONINOS

LEONINOS, BELOS DE BONITEZA
Daniela Theodoro
Caminham sob o sol
no seu belo caminhar de boniteza
E o vento passando por entre a juba e a pele e o pelo
refletem luz e brilho e chamas
Estrelas de Leo
Afeto puro de amor em fogo
que aquece e vive e dá vida
Rugem trovão
coração ingênuo e confiante
prendem garras desiludidas
na mesquinhez e na maldade humana