MEMÓRIAS JUNINAS
Sebastião Aimone Braga
O tempo passou muito rápido em volta do meu viver. Fui muito feliz no meu destino: casei, tive filhos bons e amorosos, uma mulher dedicada e hoje, quando posso, brinco com meus netos. Mas a memória me tange pra longe, para os tempos idos, pra lembranças que sempre voltam. Mais ainda quando o corpo cansado pede repouso, silêncio e aí minha imaginação viaja a deus dará.
Um olhar de curiosidade emerge, saindo de trás de uma fogueira e o calor da imagem feminina desenha-se numa noite fria de junho, no reino da minha infância. De madrugada, nas baixadas e na beira do córrego, camada fininha de geada cobrira os pastos, as plantações. Acabara o tempo das chuvas, começava a estiagem, os pastos secavam. As andorinhas e outros pássaros partiam já pra terras mais quentes. Havia a colheita do milho, as festas, os carreiros besuntavam o eixo dos carros de boi com azeite de mamona pro carro cantar mais e afinado. Era época de fazer rapaduras, que às vezes eram desmanchadas no tacho; pingando água, davam o ponto. Viravam melado, comido depois com angu, queijo ralado ou com farinha torrada do munho. Época de o calcanhar rachar e doer, de tanto frio e poeira.
No finzinho daquela tarde de junho, todos reunidos em volta da bacia de brasa na cozinha, “causos” com ouvintes atentos e participantes, caras assustadas das crianças. Alguns se arriscavam a ir lá fora, no friozinho que fazia sair vapor na fala, depois de uma pinguinha das boas, sorvida aos goles. No centro do terreiro, uma fogueira grande com muita lenha, bambu verde pra dar tiros, gravetos. Levavam pra assar nas brasas batata doce, milho verde e pinhão. Outros preferiam os caldos gordos de feijão, de mandioca, canjiquinha com costelinha de porco, nacos de linguiça tirada dos varais enfumaçados sobre os fogões antigos. O quentão recendendo gengibre, canela, cravo, cachaça e calda de açúcar. Pra adoçar a boca, canjica e pé de moleque nos pratos esmaltados e descascados.
Em volta do terreiro e circundando a fogueira, enfeites de bandeirinhas, mastros de homenagem aos santos, bananeiras, cercas de bambu e taquara. Os homens, corajosos sedutores ou confiando na fé e na tradição, caminhavam céleres sobre as brasas. Barulho de bombinhas estourando, assustando crianças e cachorros curiosos. Foguetes subiam ao céu em meio aos gritos e vivas, cada vez mais embalados pelas bebidas quentes. A sanfona já se fazia ouvir, ritmada, iniciando arrasta-pé com os primeiros casais levantando poeira no chão batido. Tudo isso me vem à lembrança num véu de nostalgia. Sugestão dos cabelos morenos a se movimentarem na friagem da noite, do outro lado da fogueira, fora do alcance das minhas mãos e das minhas saudades.
Quieto e sonhador, vislumbrei flor natural nos cabelos soltos e cheios, jeito moleque de menina. Imagens fragmentadas de vestido colorido a rodopiar em folguedos alegres, como em câmera lenta. Mosaico de cores em intervalos do negro da noite, vermelho das chamas, amarelo da claridade da fogueira. Às vezes, a cena se congelava, talvez minha memória, e a ilusão de leve mirada. Os primeiros arroubos de moçoilo encantado, hoje saudoso de um beijo que não chegou a acontecer naquela noite. Aconteceria?
A cena reconstrói-se em palavras. Os cheiros e sabores, na fumaça da memória: imagem paralisada de uma noite junina na minha infância. Foram-se todos. Ficou a cinza da saudade daqueles tempos, no fogo da vida que se esvai, na memória de tanta estrada percorrida. Chega o ocaso avermelhado do meu inverno, após tantas geadas e tanto frio. Quando meu voo partir para outras terras, quiçá menos frias, eu seguirei o sol com a imagem do meu primeiro sonho masculino, nessa distante noite, que, acredito, me acompanhará encantada até minha estiagem.
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