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quinta-feira, 22 de julho de 2010

A ATUAÇÃO DO PSICOPEDAGOGO EM PROJETOS EMPREENDEDORES

OLHARES EM MULTIPLICIDADES

Daniela Theodoro
a educação precisa ao mesmo tempo trabalhar a unidade da espécie humana de forma integrada com a idéia de diversidade. O princípio da unidade/diversidade deve estar presente em todas as esferas. Para tanto, torna-se necessário educar para os obstáculos à compreensão humana, combatendo o egocentrismo, o etnocentrismo e o sociocentrismo, que procuram colocar em posição secundária aspectos importantes para a vida das pessoas e das sociedades (MORIN, 2000, p.25).
Resumo: Este artigo pretende discutir a atuação do psicopedagogo na contemporaneidade, salientando aspectos importantes de seu trabalho para a multiplicidade e diversidade, propondo-lhe o desafio de historicizar-se: pensar a sua história como aprendente, no passado e no presente, em um processo interativo em que entram em jogo a iniciativa, a ação e reação, a pergunta e a dúvida, a busca de entendimento. Para isso, é descrito o Projeto Colcha de Retalhos, tecendo histórias. O objetivo é possibilitar ao profissional psicopedagogo uma reflexão acerca de seus principais objetos de estudo: a aprendizagem por meio do brincar e do construir e os sujeitos aprendentes.
Palavras-chave: Atuação do psicopedagogo; aprendizagem para a diversidade; sujeito aprendente.
Introdução
Este artigo se inicia abordando a importância de se falar do reconhecimento, da aceitação e do olhar para a multiplicidade. Não é possível falar sobre o trabalho do psicopedagogo, principalmente em ações empreendedoras, sem antes entender o conceito da subjetividade e da diversidade. Edgar Morin (2000), em seu livro Os sete saberes necessários à educação do futuro, nos apresenta um dos pressupostos básicos para a educação: o princípio da unidade/diversidade em que se insere o olhar dos educadores para a multiplicidade.
O exercício desse olhar (diferenciado, múltiplo) se configura como imprescindível para estabelecer instâncias libertadoras, construtivas e reconstrutivas do sujeito aprendente, fugindo de arquétipos sociais e estereótipos alienantes, que marginalizam aqueles que agem ou estão diferente da norma e dos valores vigentes (PAIN, 1992).
A partir dessa perspectiva, entende-se que o maior desafio do psicopedagogo em sua atuação é pensar constantemente a sua prática e ser competente o bastante para possibilitar ao aprendiz pensar na e para a multiplicidade, diversidade. Ser competente o bastante subentende-se aqui que esse profissional busque conhecimentos intelectuais (leituras e vivências interdisciplinares) suficientes para cumprir a sua missão de fazer-se pensar. E pensar implica necessariamente autonomia, escolhas e autoria de sua própria história, pois “aprender supõe um sujeito que se historia. Historicizar-se é quase sinônimo de aprender” (FERNANDEZ, 2001, p.68).
Essa proposta de Alicia Fernandez nos aponta para algo precípuo: como despertar o aprendente para o pensamento, a autonomia e para a autoria sem antes o psicopedagogo ter sido despertado, seduzido? É possível um profissional que lida com aprendizagem ser capaz de atuar com eficiência sem ter-se historiciado, sem ter aprendido para a multiplicidade? “Aprender supõe um reconhecimento da passagem do tempo, do processo construtivo, o qual remete, necessariamente, à autoria.”(FERNANDEZ, 2001, p.68).
Com esses questionamentos, convido você, psicopedagogo ou futuro psicopedagogo, a historicizar-se, num olhar invertido, não só como profissional mas como aprendente: narrar a si mesmo. Narrar sua história de aprendizagem. Construir ou reconstruir seu passado e reconhecer-se dentro dele para significar o mundo, e principalmente a si próprio.
Nesse processo, desperta-se para a responsabilidade do que é lidar com a aprendizagem do outro, convocando-se para a responsabilidade de lidar com a própria aprendizagem, revivendo sua história e percebendo lacunas a serem preenchidas. Essa autocrítica se faz necessária para desvelar que lhes faltam preparação e entendimento de que existe um caminho longo a ser percorrido, pois não se está pronto para começar sem que se tenha consciência da busca incessante por informação, conhecimento e aprendizagem por meio de um trabalho ético e voltado para valores sociais e múltiplos.

1 Projeto Empreendedor

1.1 Colchas de retalhos: Tecendo histórias

O Projeto Colchas de Retalhos: tecendo histórias é um projeto desenvolvido pela autora com o objetivo de inserir o idoso, contador de histórias, no universo da criança e do adulto, por meio do jogo, do brincar e da contação de histórias, que são desenhadas e bordadas pelos participantes, que constroem juntos uma colcha de retalhos. Este Projeto tem sido desenvolvido em algumas escolas e instituições educacionais por meio de contratação autônoma. Ao se definir o projeto, todas as fases foram identificadas e avaliadas, considerando os três pilares principais: A iniciativa empreendedora (Comportamento Empreendedor); O planejamento e desenvolvimento do projeto (Fundamentos da Administração); e o foco centrado nos processos de aprendizagem, inserção e valorização da memória e da subjetividade dos sujeitos envolvidos (Psicopedagogia).

1.2 A Iniciativa Empreendedora

O projeto teve como ponto de partida o olhar para a diversidade, multiplicidades. O tema, ainda com ações insipientes, se mostra inovador e intelegível para lidar com problemas contemporâneos, como o diálogo difícil entre as gerações. A princípio, buscou-se por meio de pesquisas informais em escolas e em algumas comunidades se havia demanda e oportunidades para a inserção deste trabalho. Os resultados foram positivos e os desafios (prazerosos) começaram a ser estabelecidos e superados.

1.3 O Planejamento do Projeto

A segunda fase foi iniciada: desenhou-se o projeto e as estratégias que seriam empregadas não só para a realização dele como também para a divulgação e marketing. Quem contrata o projeto é a Instituição Escolar cujo público alvo envolve a família, o alunado, os professores e a comunidade local. O foco do projeto é a inserção do idoso no grupo, que medeia as narrativas contadas por várias gerações, destacando a importância da memória nas relações sociais. A duração do projeto é definida pela contratante a partir dos objetivos traçados. Ou seja, existem formulações e adaptações do projeto para atender às necessidades de cada grupo.

1.4 A Atuação do Psicopedagogo

O psicopedagogo, como mediador do projeto, tem por responsabilidade trabalhar os processos de aprendizagem, por meio do brincar e da memória, utilizando as diversas histórias e características de narradores (subjetividades). Ao mesmo tempo em que se trabalha a aprendizagem do idoso, as outras gerações também se voltam para a valorização, inserção e aceitação dessa fase do processo de amadurecimento do ser humano, com respeito e admiração.

Considerações Finais

A Atuação do psicopedagogo deve ser uma prática social ética que busca realizar nos sujeitos humanos as características de humanização plena. Ela está ligada a processos de comunicação e interação pelos quais os grupos de pertencimento de uma sociedade (aprendente, psicopedagogo, família e escola) assimilam saberes, habilidades, técnicas, atitudes, valores existentes no meio culturalmente organizado, ganhando conhecimento necessário para produzir novos saberes, técnicas e valores (PAIN, 2002). Portanto, o objetivo maior dos psicopedagogos é contribuir para a construção permanente da cidadania e da individualidade dos sujeitos. E somente por meio da educação é possível se pensar em uma intervenção revolucionária no mundo, como nos diz Freire (1997). Tonucci (2006, p.69) nos aponta que “o homem, como sujeito que aprende, é constituído pelo que aprende, e não pode desvincular o que faz no mundo daquilo que faz de si mesmo, por sua capacidade de reflexão.” A capacidade de entendimento e reflexão sobre os desafios deve impulsionar o psicopedagogo a criar novas formas de ação, desenvolvendo empreendimentos capazes de superar obstáculos e contribuir para a educação, impulsionando projetos educacionais inovadores.

Referências
FERNANDEZ, Alicia. Os idiomas do aprendente: análise de modalidades ensinantes com famílias, escolas e meios de comunicação. Porto Alegre: Artmed, 2001.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia - Saberes necessários `a prática educativa. São Paulo: Paz e Terra (Colecção Leitura), 1997.
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez, 2000.
PAIN, Sara. Diagnóstico e tratamento dos problemas de aprendizagem. Porto Alegre: Artes Médicas, 2002.
TONUCCI, Francesco. Com Olhos de Criança. Porto Alegre: Artmed, 2006.

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